Europa Central – A história fascinante de uma região decisiva

É muito difícil estudar a história da Europa Central e, ao chegar ao capítulo em que Hitler bombardeia Varsóvia e invade a Polônia, não perguntar, simplesmente: por quê? É óbvio que essa pergunta se impõe diante de todas as decisões tomadas por aquele comandante do horror (eleito democraticamente, como é sempre importante lembrar), no que foi o período mais perverso do século XX e que, nas palavras de Janaina Martins Cordeiro, professora de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense, “marcou decisivamente o destino político” da Europa Central. Mas há algo de especialmente irracional nas invasões, como se elas ultrapassassem qualquer lógica estratégica e revelassem uma violência bruta, que parece existir apenas por si mesma.

Um problema ainda maior é que o Terceiro Reich é apenas o cume visível de uma história que é o longo processo de homens truculentos subindo ao poder embalados no vento dos ódios étnicos que inevitavelmente os levará a tomar decisões de agressão à tribo vizinha. Repetidamente. Por séculos e séculos. Como se a paz não fosse uma opção. Como se a guerra se impusesse inapelavelmente. Até hoje, inclusive. Veja a Ucrânia invadida e bombardeada em tempos de redes sociais e hiperconectividade. Veja a AfD na Alemanha, herdeira do nazismo, com um tom crescentemente belicoso, ganhando mais espaço no parlamento.

E o que é a Europa Central? Entidade de difícil delimitação, “não meramente uma expressão geográfica, mas uma ideia”, é, mais ou menos consensualmente, o grupo de estados que vai do mar Báltico ao mar Adriático, da Estônia à Albânia no eixo norte-sul. Algo entre a Alemanha e a Rússia, no eixo leste-oeste. Uma infinidade de tribos brancas se engalfinhando há séculos. E a Europa, é claro, nada mais é do que um território cercado pelo oceano Atlântico a oeste, a imensa Ásia ao leste, o vasto continente africano ao sul, e o gelo ártico ao norte. Invernos rigorosos, o eterno temor aos bárbaros, que são sempre os outros e estão sempre além do próximo rio, a dança das coroas, nações que se consolidam e se trucidam em desenhos geopolíticos frágeis, evanescentes. A Europa é também a chegada a continentes distantes, e a invasão, subjugação, extração, genocídio. Não foram poucas vezes, e não foi por pouco tempo.

O livro da Prof. Janaina Cordeiro é um manual útil e prazeroso para melhor entender a Europa Central e, consequentemente, a Europa como um todo. De leitura fluida, o texto não abandona o rigor em momento algum. Pequenas pausas com quadros explicativos, mapas e fotografias adicionam ainda mais ritmo à leitura. O conhecimento literário da Prof. também confere sabor ao texto. Logo no início do livro, ela começa a ilustrar o estranhamento entre Europa Ocidental e Europa Central através da obra-prima de Bram Stoker. Quando Jonathan Harker chega à Transilvânia para atender seu cliente, Conde Drácula, ele manda cartas à sua noiva na Inglaterra e descreve os costumes estranhos daquelas pessoas, na longínqua, pouco compreensível Europa Central. Essa representação do distante coração do continente como um lugar de superstições estranhas, onde tudo pode acontecer, é muito comum na literatura europeia. Agatha Christie, em O Segredo de Chimneys, cria um país balcânico fictício chamado Herzoslováquia, uma “terra de bandidos”. Ou seja, até na cultura pop mais mainstream vemos essa ética da alteridade quase didaticamente exposta: sempre os bárbaros além do rio. Com essa bela abertura, a Prof. prossegue e menciona também Milan Kundera, Václav Havel, Bertolt Brecht, entre outros.

E, no meu cérebro, ecoando durante toda a leitura, ficou a pergunta que expus no começo deste texto: por quê? Por que invadir, por que bombardear, por que a irracionalidade coletiva como regra? Como responder sem apelar para a tal “natureza humana”? Será que estamos fadados a ser sempre tribos engalfinhadas, guerreando por migalhas e reverenciando generais? Liderados por patifes com as melhores intenções? Espero que não.

Sou cientista social e antropóloga formada pela Unicamp. Sou pós-graduada em Gestão Escolar pela USP-Esalq e sou professora/coordenadora em uma escola internacional. Tenho muitas paixões, de caderninhos de anotações a corrida de rua, de Jorge Luis Borges a RuPaul's Drag Race, de Iga Swiatek a água com gás. Sou autora de Quarto mapa (2021) e Hi-fi da tarde e haicais noturnos (2023).