Saga brasileira

Miriam Leitão é uma das jornalistas mais conhecidas do país. Talvez seja a mais famosa jornalista de economia do Brasil e é figura onipresente: você pode vê-la todos os dias na TV e no jornal (desde 1991, trabalha para o Grupo Globo) e não há órgão de comunicação pelo qual ela não tenha passado. Do JB à CBN, da Veja à Gazeta Mercantil, Miriam tem participado da cobertura ou da editoria dos assuntos econômicos desta nossa atribulada nação desde os anos 70. A mais nova moda é chamá-la de comunista safada – igual a Globo e o Moro.

Em Saga brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda, Miriam recorre a sua bagagem como repórter para traçar em estilo jornalístico de linhas claras a barafunda que foi o processo de estabilização da moeda brasileira no período seguinte à redemocratização do país. O livro não se chama “saga” à toa: realmente, parecia instransponível o desafio de ter uma moeda que não se esfarelasse diante dos monstros inflacionários herdados da uma ditadura militar moralmente irresponsável e fiscalmente criminosa (“fiscalmente irresponsável” e “moralmente criminosa” também se aplicam). Nos anos finais do regime militar, a incompetência dos generais que tiveram as rédeas da economia por 21 anos havia chegado a limites impressionantes: em 1983, a inflação estava a 230% ao ano (a título de comparação: toda a inflação acumulada de 1994, quando da implantação do real, até a crise mundial de 2008, quando o mundo inteiro quebrou, é de 196%; a inflação acumulada de 1979 a 1994 é de mais de 13.000.000.000% – sim, treze bilhões).

Quando Tancredo Neves morre, logo após eleito, e Sarney assume (esse infame episódio que assombra a nossa transição democrática), a inflação galopante é o maior inimigo a ser combatido. Em meio à confusão das contas públicas legadas pelos militares, os brasileiros tinham que lidar com uma moeda que não fazia sentido: os preços mudavam a cada hora, a Casa da Moeda não dava conta de imprimir cédulas, mesmo quando se adicionavam ou cortavam zeros, o planejamento doméstico era impossível e qualquer transação era estar à beira da ruína financeira. Seis planos econômicos, seis moedas diferentes, 16 ministros da Fazenda, 18 presidentes do Banco Central e 2 calotes da dívida externa (sem contar o impeachment do hoje senador Fernando Collor) foram necessários para que chegássemos às soluções propostas em 1993 pelo então ministro da Fazenda de Itamar Franco: Fernando Henrique Cardoso implementa a primeira estratégia eficaz em duas décadas de descontrole e desespero e se elege presidente (duas vezes) como guardião da estabilidade monetária conquistada a duras penas. Os remédios foram caseiros mas funcionaram (talvez precisassem de um sociólogo para pensar com clareza?): saneamento das contas públicas, adoção de uma medida transitória (a tal da URV), a transição para a nova moeda e a âncora cambial. Apesar dos efeitos colaterais (quase um terço dos bancos quebraram no primeiro governo FHC e as crises cambiais que se sucederam à reeleição quase destruiram a nova moeda), os dois mandatos de FHC, mais a transição para os governos Lula, mostraram que o real era robusto o suficiente para não naufragar em meio a crises mundiais que quebraram economias inteiras.
 
Nesse livro, publicado em 2011, Miriam Leitão enfileira dados e personagens dos bastidores desse longo combate que dificilmente está completamente ganho. Porque o livro foi escrito antes das trágicas eleições de 2018, ele termina numa nota claramente otimista, ainda que cautelosa: num país como o Brasil, a inflação é um bicho que está sempre à espreita. Hoje, em 2021, é fácil perceber que a cautela é de fato necessária e que os monstros estão sempre à espreita. Todo brasileiro deveria ler este livro para conhecer mais sobre a história dessa coisa tão corriqueira que carregamos na carteira, mas, ainda mais que isso: todo brasileiro deveria saber mais números para não sair por aí falando besteira de saudosismo ditatorial. Esse monstro, como sabemos, já está de volta. 

Estudei Direito na PUC-Campinas, Letras na USP e Ciências Sociais na Unicamp. Sou professora/coordenadora em uma escola internacional e toco violão e cerca de 7 músicas no ukulele. Palmeirense nascida e criada em Campinas (SP), minhas grandes paixões são J. L. Borges e P. F. Chang's.

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