Ponto cardeal

No ano passado, 124 transexuais foram assassinades no Brasil. Seguimos, há 10 anos, como o país que mais mata trans no mundo todo. A todo momento, pessoas trans são expulsas de casa, ficam sem qualquer rede de suporte e acabam em situações de vulnerabilidade. A todo o momento, pessoas trans perdem o emprego (ou aquela vaga para a qual aplicaram, de repente, é cancelada ou fica congelada). Ao ver depoimentos de quem passou por isso, vemos quanto preconceito, desinformação, ignorância e maldade temos em nosso meio. E nos perguntamos, qual a solução para isso? Como alguém que ainda acredita do poder do conhecimento, diria: explicar, explicar, explicar.

A literatura é, talvez, a maior ferramenta de empatia e alteridade, já que um bom livro te coloca na pele do outro, te apresenta as contradições, anseios, hesitações e sentimentos do outro. E, para muitos de nós, experienciar, pela literatura, sensações de quem está no processo de transição é um importante exercício de alteridade. 

Em Porto cardeal, de Léonor Récondo, temos Laurent, sua esposa Solange, e seus dois filhos: Thomas e Claire. Aos sábados, dizendo que vai para a academia, Laurent vai para o Zanzi bar e lá, se monta e se torna Mathilda. Quando essa rotina vem a luz para a sua família, Laurent ganha força para iniciar seu processo de transição – ela é uma mulher.

Apesar da curta extensão do livro, algumas questões importantes desse processo são abordadas: vemos frestas da infância e adolescência da personagem, que nos ajudam a ter uma ideia de quanto realmente o processo – primeiro solitário e individual – começou; também acompanhamos as diferentes reações de membros da família, colegas de trabalho, vizinhos, ao início do processo; a questão médica também aparece, já que, assustadoramente, ainda hoje há “profissionais” que se prestam ao papel de propor “cura” para pessoas trans, enquanto, é preciso dizer, há também excelentes profissionais, especializados em ajudar pessoas no processo de transição (psiquiatras, psicólogos, endocrinologistas etc.).

Além disso, grande parte do processo de transição esbarra na questão do reconhecimento: Lauren é um mulher. Lauren deve ser reconhecida como tal, deve ser tratada com os nomes e pronomes corretos. Em línguas com flexão de gênero (como português, francês, espanhol, italiano e muitas outras) temos, em via de regra, a possibilidade de duas terminações: -a(s), no feminino, e -o(s) no masculino (bonita(s)/bonito(s), rápida(s)/rápido(s), toda(s)/todo(s)). Além disso, todas as línguas têm pronomes diferentes e, no caso do português, ela, no feminino, e ele, no masculino. Como seres que agem na/pela linguagem, a legitimação da pessoa trans também passa por isso, esse é um ponto muito bonito e muito caro a mim, como linguista, que é abordado com delicadeza no livro. Para saber um pouco mais da chamada linguagem neutra, indico esse artigo aqui, e, se você lê em inglês, também tem esse aqui.

A história do livro em si é simples, curta, dessas que a gente lê em duas sentadas e não aprofunda tanto qualquer uma das questões que falei, mas fato é que de modo geral, ele parece cumprir sua missão. Mesmo dentro da comunidade LGBTQIA+, muitos tópicos ainda me eram pouco conhecidos, e a leitura desse livrinho me despertou para o aprofundamento. Além disso, é importantíssimo dizer que o livro ganhou certa notoriedade porque foi premiado pelo júri estudantil com o prêmio France Culture-Télérama. Não pela premiação em si, mas por quem deu o prêmio à obra: estudantes. Em tempos em que kit gay e mamadeira de piroca são usados por facções da extrema direita, usando de fake news, “religião”, obscurantismo e violência para governar um país na truculência, é especial que estudantes (franceses) tenham premiado um livro que conta a história de uma mulher trans. 

Lauren goza de certos privilégios, ainda que limitados – ela não foi expulsa de casa, não apanhou dos pais, não foi colocada na rua sem 1 real no bolso, ela não morreu precocemente num hotel de quinta categoria em Nova York (para entender a referência, assista Paris is burning, está também na Netflix). Por isso, ler, explicar, explicar e explicar parece ser a única solução para começarmos a mudar a história e deixarmos de ocupar a posição vergonhosa do país que mais mata trans no mundo.

Sou graduada em Letras e mestranda em Linguística (Unicamp) - Sociolinguística, mais especificamente. Sou professora de inglês, flamenguista nascida e criada em Campinas (SP), que adora fazer mala e viajar, mas odeia desfazer. Capricorniana… até demais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *