Kindred – laços de sangue

“Eu era a pior guardiã possível que ele podia ter, uma negra para cuidar dele em uma sociedade que via os negros como sub-humanos, uma mulher para cuidar dele em uma sociedade que via as mulheres como eternas incapazes. Eu teria que fazer tudo o que pudesse para cuidar de mim mesma. Mas o ajudaria da melhor maneira que conseguisse. E tentaria manter a amizade dele, talvez plantar algumas ideias em sua mente que ajudassem a mim e às pessoas que seriam seus escravos nos anos vindouros.”

Kindred – laços de sangue é narrado por Dana, mulher, negra, vivendo nos Estados Unidos da década de 1970, uma jovem escritora que acabou de se mudar para um novo apartamento com seu marido Kevin.

Ao longo do processo de arrumação de seu novo apartamento, Dana sente uma tontura repentina e desmaia. É nessa situação que descobrimos o que acontece com ela a cada desmaio: ela viaja no tempo e é levada para uma fazenda de senhores de escravos nos Estados Unidos do século XIX. A questão é que todas as vezes que isso acontece, ela se encontra perto de Rufus, uma criança (branca) filha dos donos da fazenda, que sempre está em perigo de morte quando Dana chega.

Poderia ser apenas mais um livro de viagem no tempo, mas Octavia Butler, a primeira dama da ficção científica (que inclusive é filha de de um engraxate e uma faxineira, e acabou tomando gosto pela leitura por meio das revistas jogadas no lixo dos patrões de sua mãe – e mais do que tomar gosto pela leitura, Octavia Butler sempre desejou superar as histórias que lia quando criança – e é seguro dizer que conseguiu!), não para por aí. Lembram que Dana é uma mulher negra e Rufus é uma criança branca (um senhorzinho de escravos mais precisamente)?

Fazendo uso de um clássico recurso da ficção científica (a viagem no tempo), Butler leva-nos à reflexão acerca de temas tenebrosos como escravidão, racismo, sexismo e violência. Uma vez que, apesar de Dana saber que tinha um passado recente de parentes escravizados, raramente pensava sobre isso. No entanto, com suas viagens no tempo, Dana fica cara a cara com seus ancestrais escravizados, e ainda decifra seus complexos laços de sangue com Rufus.

A editora Morro Branco publicou no Brasil duas edições dessa obra incrível (uma capa dura e outra “normal”) e continua publicando outras obras de Octavia Butler em português. Kindred, especificamente, é uma leitura fluida – apesar de pesada e tensa – já que Butler constrói narrativa de modo que é simplesmente impossível largar o livro até descobrir o que vai acontecer com Dana, Kevin e Rufus.

Uma mulher, negra e pobre, escrevendo sci-fi no século XX – gênero e período dominados por homens brancos – e ainda por cima ganhando por sua obra os prêmios Hugo e Nebula (os mais prestigiosos da ficção científica): isso sim é que parece um tema de ficção. Por isso (também) é uma leitura imperdível!  

Sou graduada em Letras e mestranda em Linguística (Unicamp) - Sociolinguística, mais especificamente. Sou professora de inglês, flamenguista nascida e criada em Campinas (SP), que adora fazer mala e viajar, mas odeia desfazer. Capricorniana… até demais.

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