Cormoran Strike, BBC e J. K. Rowling

Na semana passada a Rocco lançou no Brasil o quarto livro da série sobre o detetive Cormoran Strike, Branco letal, assinado por Robert Galbraith. Como talvez agora o mundo inteiro saiba, esse tal Galbraith é na verdade a J. K. Rowling travestida de escritor novato. Quando fiquei sabendo, achei o máximo, porque: qualquer editor no mundo publicaria a J. K., a primeira escritora bilionária da história (nunca me canso de dizer isso aos que têm implicância com Harry Potter; isso, e também: “leia os livros”, já que nunca conheci alguém que tivesse implicância e que tivesse de fato lido), filas e filas de gentes se acotovelariam pelos primeiros exemplares e tudo aquilo, além de que a crítica babona ou ácida jamais partiria do zero ao enaltecer ou estraçalhar, então a publicação sob pseudônimo foi uma espécie de desafio, de aventura. (Eventualmente desmascarada, claro.)

Devo dizer que, como já estava ciente de que a autoria é da J. K., não tive a oportunidade de ler sem pré-julgamentos (o que teria sido algo bem legal, também). Desde a primeira página de O chamado do Cuco, portanto, me acomodei na poltrona pronta para ler a voz de uma das minhas escritoras preferidas, então já deixo bem claro pra quem está lendo este meu comentário: adorei os livros e também adorei o exercício da J. K.

Antes de mais nada, vale lembrar: J. K. vem das terras dos grandes detetives. Arthur Conan Doyle e Agatha Christie criaram os dois mais emblemáticos detetives que existem, e J. K. Rowling tinha muita tradição a seu favor e também contra si, quando decidiu criar Cormoran Strike.

Cormoran é muito distante do tipo cerebral de Sherlock ou Poirot: ele não se senta, olhos fixos no vazio, para usar a “massa cinzenta”; ele não escreve boletins sobre química ou sobre os quatrocentos tipos de tabaco; ele não tem um QI de cientista maluco nem especial aptidão para artes marciais. Cormoran é um militar reformado que lutou na guerra no Afeganistão e que perdeu meia perna por conta da explosão de uma mina. Com sua prótese (que às vezes leva a quedas ou desconforto, porque ele inclusive está um pouco acima do peso), ele transita por Londres usando trens e táxis, e mal pode esperar para chegar em casa (no primeiro livro, o próprio escritório; a partir do segundo, o apertado sótão do prédio onde fica sua agência) para fazer chá, fumar e assistir aos jogos do Arsenal. Cormoran, se comparado a Sherlock e Poirot, nada tem de especial. O que ele tem, no entanto, faz com que seja um ótimo detetive: ele é frio (cool soa melhor – até porque ele é filho de um rockstar), excepcionalmente perspicaz e nobre — como não poderia deixar de ser num herói da J. K. Rowling.

Além dessas qualidades, Cormoran tem uma assistente muito competente. Robin Ellacott aparece no primeiro livro num momento em que Cormoran está totalmente por baixo. Ele acabou de terminar um relacionamento de dezesseis anos, tem apenas uma cliente pagante e está às portas da falência (com a mão na maçaneta, eu diria). Robin é mandada a ele como secretária pela agência de temporários que presta serviços ao detetive e está designada para trabalhar para ele por apenas uma semana. É no primeiro dia de Robin que surge para Cormoran o maior trabalho em muitos anos, e no decorrer dessa semana Robin demonstra tanta sagacidade e competência que, de cara, sabemos que aquela parceria é destinada a durar e que eles formarão uma bela dupla. (Há uma clara atração entre os dois, mas Robin tem um noivo – que no terceiro livro, contra toda a torcida, vira marido – e Cormoran acabou de romper com uma mulher maluca. No fim das contas, o carinho e a admiração acabam ficando entre os dois o tempo todo, como se houvesse mais a se perder que a se ganhar com uma aproximação romântica. De qualquer maneira, Cormoran tem noção de que Robin é uma mulher muito atraente, e Robin, no fundo, sabe que Cormoran é um cara que tem muitas qualidades que seu noivo marido não tem.)

Na série da BBC, Strike, realizada desde 2017 pela Brontë Film & TV, produtora de J. K. Rowling, Robin e Cormoran são assim:

Aliás, boa série: até agora, são três temporadas (curtas: a primeira tem três episódios e as outras duas, dois episódios cada), uma para cada livro; a quarta temporada, Branco letal, sai em setembro. O casting me pareceu preciso, assim como a caracterização: tudo conversou com o que eu tinha imaginado a partir dos livros (a produção executiva, inclusive, é da própria J. K. Rowling). Um bônus da série é aquele arzão britânico e os sotaques por vezes indecifráveis, coisas que obviamente se perderam nas traduções para o português que eu li. (É possível ver os episódios no YouTube mesmo.)

Os plots dos quatro livros giram em torno de assassinatos. No primeiro, nossa dupla investiga o suposto suicídio de uma supermodelo-problema. No segundo, acompanhamos a busca pelo sanguinário assassino de um escritor meio sem noção. O terceiro, por sua vez, narra a caçada a um serial killer obcecado por Strike e o quarto, finalmente, é sobre a morte de um menino em circunstâncias, digamos, invulgares. Conforme avançamos nas histórias, J. K. parece ficar mais à vontade: até os crimes ficam mais extravagantes, como se ela tivesse se permitido ousar com tintas de cores mais fortes. Enquanto em O chamado do cuco ela experimentava a pele de Robert Galbraith, em Branco letal ela parece já estar morando ali, totalmente segura da força de seus personagens.

Impossível não admirar uma mulher como J. K. Rowling. Além de ela contar com uma imaginação fora de série, ela tem um jeito todo especial com palavras. Em Harry Potter, trouxe à vida o menino bruxo mais querido em séculos e séculos de literatura em língua inglesa, e todo um universo crível e sedutor para que ele habitasse. Deu a Harry amigos que se tornaram amigos de crianças, adolescentes e adultos mundo afora (quem não tem carinho por Ron Weasley e Hermione Granger?), e um obstáculo épico que, no fim das contas, reafirmou nos corações de todos os que acompanharam os sete anos em Hogwarts que o amor é a forma de magia mais poderosa entre todas as formas de magia. J. K. Rowling criou mais que um personagem de ficção, quando criou Harry Potter: para mim, ela criou um companheiro (tantas horas, desde a minha infância, passei lendo Harry Potter, que é provável que eu tenha estado com ele mais que com muitos amigos reais) e um herói que só posso definir nas palavras de Dumbledore: “Harry, you wonderful boy, you brave, brave man”.

Eu não poderia, portanto, ter lido esses livros de Robert Galbraith com pouca afeição. Foram leituras muito prazerosas que me lembraram o quanto gosto da J. K. Rowling. Sem contar que ela é uma belezinha, olha:

Estudei Direito na PUC-Campinas, Letras na USP e estou no último ano de Ciências Sociais na Unicamp. Sou professora/coordenadora em uma escola internacional e toco violão e cerca de 7 músicas no ukulele. Palmeirense nascida e criada em Campinas (SP), minhas grandes paixões são J. L. Borges e P. F. Chang's.

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