Steve Jobs

Lançado nos Estados Unidos em 24 outubro de 2011 (ou seja, 19 dias depois da morte de Steve Jobs), esta biografia é o resultado de dois anos de entrevistas e não devo estar exagerando se disser que consiste no último e definitivo legado da longa sequência de legados que foi a carreira de Steve Jobs. Pelas lições e advertências que traz, é claro, mas também pelo produto que representa. 

Jobs, conhecido pelo obsessivo detalhismo com que conduzia as equipes que liderava, procurou Walter Isaacson (jornalista da CNN, autor das biografias de Albert Einstein e Benjamin Franklin e, mais recentemente, a de Leonardo da Vinci), especificamente, anos antes de morrer (e depois, repetidamente, quando seu câncer foi detectado), para que ele fosse seu biógrafo. Prometeu que não exigiria controle algum sobre o texto e que conversaria sobre o que fosse necessário, dando inclusive sua autorização para que família e amigos fossem consultados durante o processo de escrita. Isaacson relutou, a princípio, pois o temperamento do fundador da Apple era conhecidamente assustador, mas Jobs conseguiu seduzi-lo e vendeu sua ideia. O resultado é uma biografia inspiradora, deliciosamente bem escrita, que retrata a trajetória de um homem sobrenaturalmente visionário.

Essa visão, característica mais marcante de Jobs, vinha acompanhada de outros traços fundamentais: a mania de controle, a obsessão com a qualidade do produto, uma poderosa intuição e, é claro, o bom gosto. A convergência de tudo isso resultou num império de inovação tecnológica que deitou raízes na indústria dos gadgets e, portanto, no modo como nos relacionamos uns com os outros – já nos anos 70, quando o computador pessoal mal existia, Jobs falava sobre o futuro hiperconectado da informática. Esse império revolucionou a indústria da música e, portanto, o modo como consumimos música – a Apple supriu uma lacuna no relacionamento entre as instâncias produtoras de música e os consumidores em um momento muito turbulento do mercado fonográfico; iPods e iTunes podem parecer ideias óbvias agora que são tão difundidos, mas nem toda a expertise de gigantes como Clive Davis e Doug Morris foi capaz de conceber e executar a monetização do que era então a grande sangria da pirataria. Seus efeitos foram meteóricos também sobre a indústria de entretenimento e, portanto, no modo como consumimos entretenimento (a Pixar foi o resultado daqueles anos em que Jobs ficou afastado da Apple; hoje, a Pixar é sinônimo de bilheterias fabulosas e filmes idem).

Através dessa poderosa intuição e por causa dessa obsessão com a qualidade, Jobs teve o bom gosto de não interferir na produção de sua biografia. Superou sua mania de controle para focar no produto: uma biografia encomendada e censurada é um objeto de propaganda, não uma biografia de fato. Um produto de qualidade, em matéria de biografias, seria algo livremente pesquisado, e foi isso que Jobs intuiu ser necessário para a realização desse grande legado final. 

A minha experiência de usuária, de consumidora final desse texto, foi incrivelmente satisfatória. Acredito que Steve Jobs tinha isso em mente quando convocou Isaacson para desenhar o produto que poderia oferecer: a história de sua vida (o bom, o mau e o feio – Jobs foi sem dúvida excepcional, mas o homem Steve não é pintado de maneira exatamente lisonjeira), da famosa garagem ao topo do mundo.

Obs.: O filme do Danny Boyle baseado nessa biografia é muito bom, apesar de eu achar que o Michael Fassbender é tão diferente do Jobs fisicamente a ponto de me fazer preferir aquele estrelado por Asthon Kutcher (mais adoçado e sem a mão do Boyle, mas com um ator que parece o biografado).

Estudei Direito na PUC-Campinas, Letras na USP e Ciências Sociais na Unicamp. Sou professora/coordenadora em uma escola internacional e toco violão e cerca de 7 músicas no ukulele. Palmeirense nascida e criada em Campinas (SP), minhas grandes paixões são J. L. Borges e P. F. Chang's.

1 Comentário

  1. Bradley
    13 de julho de 2019

    I enjoy the report

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