5 razões por que Game of Thrones teve o melhor dos finais possíveis

(SPOILERS, é claro)

Tudo bem, eu entendo que esse final de Game of Thrones tenha deixado um gostinho de decepção. Mas, entre todos os gostinhos que foram deixados nesses oito anos, convenhamos, já devíamos pelo menos estar preparados para um pouco de decepção. (Pra começar, Game of Thrones foi a série que logo de cara matou Ned Stark, não podemos esquecer disso. Todo mundo ficou puto mas depois todo mundo entendeu, já que a série desde cedo deixou claro que tudo poderia acontecer e que ninguém seria poupado – nem a gente.)

Julgando pela reação no Twitter na noite de ontem, durante a após o episódio final, houve alguns pontos que deixaram alguns fãs desapontados e outros fãs desesperados. Eu, particularmente, acho que a gente merecia uma temporadazinha de uns 10 episódios pra acabar tudo com calma. Fiquei de cara a semana inteira por causa da Daenerys pagando de rainha louca no episódio passado, chorando minhas pitangas porque tinha fé que ela ia ser a rainha sensata que torcíamos pra ela ser. Mas já vou dizer por que vi as coisas de outro jeito nesse último episódio e por que acho que, entre todos os finais possíveis para essa série incrível, o mais “feliz” foi o que acabou acontecendo. E nada melhor que uma lista pra organizar os pensamentos:

1. Daenerys de fato “quebrou a roda”

Era essa a missão que ela tinha se imposto. E, se você para pra pensar, não tinha como ela quebrar a roda e ser rainha ao mesmo tempo: ela era uma Targaryen, a própria representação da tal roda. A representação do poder hereditário que se degenera numa série de tiranos megalomaníacos despreparados que não nos são estranhos e que se baseiam num “destino” ou “direito divino”. Daenerys merecia ser rainha porque era uma Targaryen e tinha o “sangue certo”? Mesmo depois de destruir uma cidade inteira? (E entendo que a decepção já venha do episódio 5, com a “súbita” mudança da antes magnânima Dany, mas Tyrion traz um ponto interessante em uma conversa com Jon Snow neste último episódio: ela crucificou centenas de homens em Meereen, e a gente aplaudiu porque eles eram ruins; ela matou pessoas que se recusaram a “bend the knee” e aplaudimos porque ela era nossa rainha. Mas pensa comigo: ela não fez nada que ela mesma não achasse certo, e quando esse juízo sofreu um leve desvio para a tirania, deu no que deu. Esse final de GoT foi, além de tudo, uma grande alegoria das disputas do poder e do poder maquiavélico absoluto). Acho sim que a última temporada poderia bem ter tido uns episódios a mais para um desenvolvimento mais compassado dos personagens, mas Daenerys dava sinais de sofrer do “mal dos monarcas absolutos” já há algum tempinho. Além disso, se depois de ela ter destruído uma cidade inteira com um dragão, você ainda estava torcendo por ela porque é “time Targaryen”, você estava encarando toda essa política em GoT como o brasileiro encara a política no Brasil: como futebol.

2. Bran se tornou o Rei dos Seis Reinos e ninguém esperava por isso

Ninguém apostou ficha nenhuma no menino de olhos vagos que a todo momento era chamado de aleijado na série. Mas repare na trajetória de Bran: filho de Ned Stark, senhor de Winterfell, esteve presente em momentos cruciais da série (inclusive é pelos olhos dele que descobrimos que Jamie e Cersei são amantes, num evento que gera todos os movimentos posteriores na série). Apesar de todas as limitações físicas, vai para além da muralha antes mesmo de saber o que ia acontecer. Vira o corvo de três olhos, que é basicamente, na falta de uma explicação melhor, a encarnação da sabedoria. Na batalha dos mortos, ele está no coração do combate e é ele que possibilita que Arya mate o Rei da Noite. Ele esteve debaixo do nosso nariz o tempo todo (inclusive sentado em algo que lembra um delicado trono – se bem que um trono de alguém incapacitado para a violência – desde a segunda temporada). Ninguém melhor que Bran para ser o rei depois das batalhas que seguiram a morte do rei Robert: o menino que não queria ser rei, o menino que acessa todo o repositório de conhecimento de Westeros, irmão de Sansa Stark e Arya Stark, filho de Ned Stark. Se, depois de tudo isso, você diz que preferia a Daenerys porque ela tinha superpoderes, pense que os poderes de Bran são ainda mais apropriados para um longo reinado de paz. (Sem contar o small council que Bran acabou reunindo: Tyrion, Samwell, Bronn – que é sem noção mas é do bem -, Brienne e Pod como seus escudeiros: todo o time do bem, gente!)

3. Arya tem um destino grandioso como ela

Vai ser uma grande navegadora, capitã de navio, descobrir novos territórios e entrar para os anais das ilustres figuras de Westeros. Não consigo pensar em um final mais poderoso para ela, a mulher que simplesmente salvou o pescoço de toda a humanidade. O que seria melhor que isso? Ficar em King’s Landing cuidando do Bran ou em Winterfell cuidando da Sansa? Ou abrir uma escola de assassinos? Ou casar com o Gendry? Ela dizia desde criancinha que não queria ser uma lady. Ela é a espadachim mais poderosa de todo o continente e tem habilidades sobrenaturais: sair pelo mundo navegando para desbravar lugares desconhecidos é um destino muito empoderado e empoderador para uma personagem feminina num mundo em que os grandes descobridores são, sem exceção, homens. Arya maravilhosa, capitã do meu coração.

4. Sansa e Jon Snow têm o destino que merecem

Uma das primeiras coisas que Sansa Stark diz na série, logo na primeira temporada, é que queria muito ser rainha. Também na primeira temporada Jon Snow segue voluntariamente para a muralha. Pra mim, o full circle e o final perfeito para esses personagens não poderia ter sido melhor: Sansa se torna rainha do Norte (que se constitui em reino independente, o que faz todo sentido: as idiossincrasias desse povo de clima frio é colocada em contraste com o resto do continente a todo momento na série, dos ditados às crenças; além disso, e principalmente, é no Norte que a batalha contra os mortos é ganha) depois de transitar por um arco de desenvolvimento doloroso porém bem construído: ela vai de menina mimada a mulher madura sem que os roteiristas a poupem de qualquer sofrimento. A Lady of Winterfell merecia mais que ninguém o trono do Norte. Jon Snow, por sua vez, segue para o único destino possível: aquele que ele mesmo havia escolhido no começo de sua história. Não podendo permanecer em Westeros nem ser executado, natural que fosse mandado para a degredo: o detalhe é que durante a série é lá na muralha que ele trava a maioria das relações que vão torná-lo quem ele é. É na muralha que ele passa seus dias mais felizes, é lá que ele é trazido de volta a vida, é por uma selvagem que ele se apaixona. A muralha é, enfim, seu destino anunciado.

5. Por bem ou por mal, as pontas principais são atadas

A temporada foi mesmo curta. Quatro episodiozinhos a mais fariam sentido pra mim. (Depois do episódio 3, qualquer coisa seria um anticlímax e talvez esse tenha sido um ponto contra a series finale.) Mas, gente. Depois que você se entrega ao GoT, você se deixa levar e pronto. Os caras sabiam o que estavam fazendo. Lembra da visão da Daenerys lá na segunda temporada, em que a gente estranha estar nevando em King’s Landing, dentro da sala do trono? Neste último episódio vemos que não era neve, e sim cinzas. Assim como na visão, Daenerys chega perto do trono e contudo não senta nele. Jamie Lannister morre com Cersei (sério mesmo que a galera achou que era amor real com a Brienne?), e Brienne registra no livro dos feitos que Jamie morreu defendendo sua rainha: e era isso que faltava no arco do personagem. Jon se reencontra com Ghost e Tormund, Tyrion se torna oficialmente o político habilidoso que sempre foi, Samwell se torna meister. A série que começa com os Stark em Winterfell termina com os Stark pelo mundo assumindo posições que de certa maneira sempre estiveram destinadas a eles.

Eu entendo a dor de quem está triste pelo fim, porque também estou. Também entendo que talvez esse final tenha sido feliz demais para uma série como Game of Thrones e que a última temporada foi curta demais pra gente, porque a gente queria mais. Mas confesso que fui dormir com o coração quentinho, depois daquela cena em que o small council está de fato discutindo questões sobre a melhoria de vida da população, e não escusas transações do poder. Fui dormir sabendo que, com o rei Bran the Broken, Westeros terá aí uns bons 50 anos de paz.

falando sobre tudo, menos logaritmo.

2 Comentários

  1. Lince-Não-Tão-Anônimo
    21 de maio de 2019

    Amei o texto! Gostei muito do episódio final basicamente pelos mesmos motivos.

    Acompanho a saga — também sou apaixonado pelos livros — desde 2013, e foi muito bom ver tomar o rumo que tomou. O que desagradou muita gente, por fim, me deixou bastante satisfeito. Por exemplo: vi muita decepção por personagem A ser construído de maneira X e, “de repente”, acabar de maneira Y. Mas, não tivesse sido esse o rumo, seria mais uma série dentre outras, onde os personagens são construídos de uma maneira em que falta aquela falha da “imprevisibilidade humana” — aquela mesma imprevisibilidade que faz uma alcoólatra que estava há 2 anos em um grupo de AA voltar a beber, que em 5 anos faz uma multidão seguir, amar e acreditar em um líder que dizima milhões em nome de liberdade e justiça, que faz uma pessoa não-tão-boa mover montanhas em sua própria crença de que é bem-intencionada, que nos faz tomar alguma atitude intuitivamente e impulsivamente sem termos muita certeza de qual será o resultado, etc. Para mim, sem dúvidas, essas fugas dos arcos e fins esperados foram o ponto forte dessa temporada final. Jaime voltando para a Cersei, a Cersei que não morre com um punhal na garganta, o nome Targaryen sendo amaldiçoado e tornando inútil e indesejável a ascendência do Jon, o Bran que, mesmo tendo todo o poder de interferir nos cursos dos eventos, não o faz — porque é um personagem inteligente o suficiente para saber que, interferindo mais do que deveria, as coisas não acabariam do jeito que acabaram — e, também, o tratamento das profecias tal como George R. R. Martin queria que elas fossem tratadas durante a saga, i.e., atuando como bússolas para espectadores e personagens, e não como mapas.

    Por fim, a redenção da Daenerys foi algo que gostei muito também. Para quem gosta de Joseph Campbell ou Jung, foi uma das representações mais lindas do arquétipo do(a) messias (e também da carta do anônimo do Tarot): Daenerys, seja mhysa ou seja mãe de dragões, foi a grande catalisadora de mudanças, foi a personagem necessária para que tudo fosse transformado. Seja através do amor inspirado nos dothrakis e nos imaculados, seja pela destruição de Porto Real e pela morte de milhares de inocentes, tal como colocado no seu texto, a roda foi quebrada. A parte animalesca da personagem continuava viva, sabia o que aconteceu e sabia o que tinha de fazer, assim como Daenerys sabia, lá na primeira temporada, que tinha de entrar em uma pira com três ovos de dragões. Eu não poderia ter pedido por uma última cena melhor para fechar o núcleo da personagem.

    Responder
    1. Natasha
      24 de maio de 2019

      É isso, Lince-não-tão-anônimo (kkk luan)! Obriga mesmo por compartilhar com a gnt a ideia de que afinal, foi um final feliz (estranhamente feliz, em se tratar de game of thrones)!

      Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *